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Saúde mental no trabalho: sinais de burnout e o que fazer

Equipe da TeamCulture
· 10 min de leitura
Saúde mental no trabalho: sinais de burnout e o que fazer

Saúde mental, para a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um estado de bem-estar mental que permite às pessoas lidar com o estresse da vida, desenvolver suas habilidades, aprender e trabalhar bem e contribuir com a comunidade. No trabalho, ela é influenciada pelas condições em que o trabalho acontece, como carga, ritmo, clareza de papel, apoio da liderança e respeito. Para a empresa, cuidar da saúde mental significa medir esses fatores com frequência e agir onde eles pesam. O burnout é o risco mais conhecido quando o estresse no trabalho não é gerenciado: a OMS o descreve como uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso.

Este guia foi escrito para o RH e para as lideranças, com foco no que a empresa pode medir e fazer. Quem estiver passando por um sofrimento intenso deve procurar um profissional de saúde, como psicólogo ou psiquiatra.

Por que a saúde mental no trabalho virou pauta do RH

Segundo a ficha informativa da OMS sobre saúde mental no trabalho, atualizada em setembro de 2026, cerca de 16% dos adultos em idade de trabalhar tinham algum transtorno mental em 2023. A depressão e a ansiedade fazem o mundo perder em torno de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, com custo estimado de 1 trilhão de dólares em produtividade.

A mesma ficha lista riscos que nascem no próprio trabalho e estão ao alcance da gestão, como excesso de demandas, jornadas inflexíveis, papel mal definido, supervisão autoritária e assédio. Por isso o assunto saiu da área de benefícios e chegou à gestão. Um programa de bem-estar ajuda pouco quando a meta só fecha com horas extras ou o gestor cobra sem orientar.

O que é burnout segundo a OMS

O burnout está na 11ª revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), com o código QD85, no capítulo de fatores que influenciam o estado de saúde ou o contato com os serviços de saúde. A OMS o define como uma síndrome resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso, com três dimensões:

  • Exaustão, a sensação de energia esgotada.
  • Distanciamento mental do trabalho, com sentimentos de negativismo ou cinismo em relação a ele.
  • Redução da eficácia profissional, a percepção de que já não se consegue fazer o trabalho bem.

A OMS classifica o burnout como um fenômeno ocupacional e diz que ele não é classificado como condição médica. O termo se refere apenas ao contexto do trabalho e não deve ser usado para descrever experiências de outras áreas da vida.

O Ministério da Saúde orienta procurar apoio profissional logo nos primeiros sintomas e informa que o diagnóstico é feito por especialista, como psiquiatra ou psicólogo, com atendimento gratuito no SUS pela Rede de Atenção Psicossocial. Ao RH e ao líder cabe perceber os sinais, acolher e encaminhar, sem tentar diagnosticar ninguém.

Diferença entre estresse e burnout

O estresse pontual faz parte de qualquer trabalho. O burnout, na definição da OMS, aparece quando esse estresse se torna crônico e ninguém o gerencia. A tabela resume a diferença em termos práticos para a gestão, sem pretensão clínica.

Estresse no trabalhoBurnout
O que éReação a uma exigência do momento, como um prazo ou um pico de demandaSíndrome ligada ao estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado (CID-11, QD85)
DuraçãoCostuma diminuir quando a pressão passaCostuma persistir mesmo depois de dias de descanso
Como a pessoa se senteTensa e acelerada, mas ainda envolvida com o trabalhoEsgotada, distante do trabalho, cética e com a sensação de que não rende mais
O que a empresa fazPlaneja os picos, redistribui a carga e garante pausas depois da entregaRevê as condições de trabalho daquele time e facilita o acesso a apoio profissional para a pessoa

Sinais de burnout que a empresa consegue perceber

O que conta é o comportamento que mudou e se mantém por semanas, e também o padrão do time inteiro; um dia ruim sozinho diz pouco. A tabela organiza os sinais pelas três dimensões da OMS e mostra onde eles aparecem nos dados que o RH já tem.

Dimensão (OMS)O que o líder pode notar na pessoaOnde aparece nos dados da empresa
ExaustãoCansaço que não passa, dificuldade de concentração, mensagens fora do horário com frequência, férias adiadasHoras extras recorrentes, atestados curtos e repetidos, nota baixa em carga de trabalho e equilíbrio entre vida e trabalho
Distanciamento e cinismoIronia sobre a empresa, silêncio nas reuniões, isolamento do timeQueda na participação da pesquisa, opiniões negativas sobre liderança e propósito, eNPS em queda
Eficácia reduzidaErros novos em tarefas conhecidas, entregas atrasadas, frases como “não dou mais conta”Queda de desempenho sem mudança de função, pedidos de transferência, mais pedidos de demissão na área

Quando os mesmos sinais aparecem em várias pessoas de um time, a causa raramente é individual. Uma área inteira com nota baixa em carga de trabalho e muitas horas extras indica um problema de organização do trabalho, e é ali que a ação precisa começar. O absenteísmo aberto por área ajuda a encontrar esses focos, porque atestados e faltas repetidos em um time costumam ser um dos primeiros sinais de desgaste.

O que a empresa pode medir

A empresa mede as condições de trabalho e a percepção das pessoas sobre elas, combinando três fontes.

Pesquisa com os colaboradores. Perguntas sobre ritmo e volume de trabalho, clareza do que se espera, apoio do líder, reconhecimento, equilíbrio entre vida e trabalho, respeito e abertura para falar de saúde mental mostram onde estão os fatores de risco. A pesquisa anual pode chegar tarde para perceber um esgotamento em formação, e uma pesquisa curta e frequente costuma funcionar melhor nesse tema. Em pesquisa pulso ou pesquisa anual há a comparação entre os dois formatos.

Indicadores que a empresa já tem. Absenteísmo e atestados por área, afastamentos por transtornos mentais, horas extras, férias vencidas e turnover voluntário. Lidos juntos e por equipe, mostram onde aprofundar.

Canais de escuta. Conversas individuais, grupos de discussão, ouvidoria e canais de denúncia de assédio trazem o contexto que os números não mostram.

Os resultados de pesquisa aparecem só de forma agregada, com um número mínimo de respondentes por grupo, e os dados de saúde de cada pessoa ficam restritos à medicina do trabalho.

Na Sicredi Ouro Verde, cliente da TeamCulture, a leitura vai além dos indicadores feitos para o tema. Em webinar com a TeamCulture, Daniela Uliana, assessora de Pessoas e Cultura da cooperativa, contou que a área olha “não só nesses pilares próprios” de risco de burnout e de saúde, mas também afirmativas de outros pilares, para entender por que um deles caiu.

O que a empresa pode fazer

Meça com frequênciaPesquisa curta, indicadores por área e canais de escuta.
Encontre os focosTimes e fatores com pior resultado, comparados ao histórico.
Entenda a causaConversa com a equipe e com o líder antes de decidir a ação.
Aja nas condições de trabalhoPlano com responsável, prazo e indicador de partida.
AcompanheMesma medida, mês a mês, para saber se a ação funcionou.
Ciclo de cuidado com a saúde mental no trabalho, do diagnóstico ao acompanhamento das ações

As ações que mais mudam o resultado alteram a forma como o trabalho é organizado. Palestras e aplicativos de meditação entram como complemento.

Revise carga, ritmo e autonomia. Metas que dependem de horas extras frequentes, equipes desfalcadas por meses e prazos sobrepostos são as causas mais diretas de exaustão. Redistribuir demandas, reforçar equipes e dar margem para a pessoa ajustar a ordem das tarefas ou o horário ajudam a atravessar os picos.

Deixe claro o que se espera de cada pessoa. Prioridades que mudam sem aviso e responsabilidades sobrepostas geram desgaste e conflito. Poucas prioridades por ciclo, revisadas com o time, reduzem a sensação de nunca estar dando conta.

Cuide das reuniões e do horário. No período de trabalho remoto, em live com a TeamCulture, o time de pessoas da Ambev Tech contou que um indicador da pesquisa vinha caindo e que montou um plano sobre bem-estar e saúde mental. Uma das ações foi uma diretriz de redução das agendas em 50%, com autonomia para cada time decidir como aplicar. “Isso não acontece se a gente não empodera os nossos times”, disse a representante da empresa na live.

Trate o assédio sem demora. Canal de denúncia confiável, apuração com prazo e consequência para quem pratica.

Facilite o acesso a apoio profissional. Plano de saúde com cobertura de psicologia e psiquiatria, programa de apoio ao colaborador e orientação sobre como usar esses recursos, lembrando que o SUS também oferece atendimento. Em bem-estar no trabalho há outras iniciativas para começar.

O papel do líder

O líder direto está na posição de perceber primeiro a mudança e também de causar parte dela. A OMS recomenda treinar os gestores em saúde mental para que saibam reconhecer e responder a alguém em sofrimento emocional, com comunicação aberta, escuta ativa e entendimento de como os estressores do trabalho afetam a saúde. Na prática, isso se traduz em quatro comportamentos:

  • Perguntar e ouvir. Em conversa reservada, comentar a mudança percebida (“tenho notado que você está saindo mais tarde, como você está?”) e deixar a pessoa falar, sem pressa de resolver.
  • Acolher sem diagnosticar. O líder mostra que se importa e indica os caminhos de apoio, como o plano de saúde ou a medicina do trabalho.
  • Agir no que está ao seu alcance. Rever prioridades, redistribuir tarefas, combinar um período de menor carga.
  • Envolver o RH quando o caso pede. Situações de risco, relatos de assédio ou pedidos de afastamento seguem para o RH e para os profissionais de saúde, com sigilo.

Conversas regulares de one on one, com carga de trabalho e bem-estar na pauta fixa, evitam que a pessoa precise chegar ao limite para falar.

Essa abertura se constrói com o tempo. Em webinar com a TeamCulture, Fernanda Zittlau, de Pessoas e Cultura da Sicredi Araxingu, contou que, no canal de opiniões da pesquisa contínua, já houve colaboradores que escolheram se identificar em temas delicados para pedir uma conversa com o líder. “E aí a gente vê o quanto tá se sentindo seguro”, disse ela.

Saúde mental, NR-1 e a Lei 14.831

Desde 26 de maio de 2026, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, está em vigor a nova redação da NR-1, que inclui de forma expressa os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. A OMS aponta vários desses fatores, como excesso de demandas, papel mal definido, pouco apoio e assédio, como riscos à saúde mental no trabalho. A norma pede que a empresa identifique, avalie e registre esses riscos no PGR, com plano de ação e participação dos trabalhadores, olhando para as condições de trabalho de cada atividade.

Até a data desta publicação, multas e outras sanções ligadas a esses dispositivos estão suspensas por decisão do STF (ADPF 1316), prorrogada em 24/09/2026, enquanto o caso segue em conciliação. A obrigação de gerenciar os riscos continua valendo. O passo a passo e a situação atualizada estão em NR-1 e riscos psicossociais.

A Lei nº 14.831, de 27 de março de 2024, criou o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, concedido pelo governo federal às empresas interessadas que cumprirem requisitos de promoção da saúde mental, bem-estar dos trabalhadores e transparência, como acesso a apoio psicológico, capacitação de lideranças e combate ao assédio. O certificado vale por dois anos e é uma escolha da empresa.

Como a TeamCulture ajuda a acompanhar a saúde mental das equipes

No módulo de Engajamento da TeamCulture, a pesquisa contínua tem poucas perguntas por semana e acompanha dez pilares de clima, entre eles o de Bem-estar. Com as mesmas respostas, sem perguntas extras sobre temas sensíveis, a plataforma calcula o Índice de Burnout, que cruza dados de vários pilares e fatores e funciona como alerta antecipado de esgotamento no nível do time. Calcula também o pilar de Riscos Psicossociais, com fatores compatíveis com o COPSOQ-III, que a plataforma usa como referência: demandas de trabalho, autonomia e controle, significado e clareza, suporte social e liderança, conflitos e relações, equilíbrio trabalho-vida pessoal, insegurança e estabilidade e bem-estar psicológico, cada um classificado em risco baixo, moderado ou alto. Os resultados aparecem sempre agregados.

Nas opiniões abertas, a análise de sentimento com IA identifica ocorrências sensíveis, como menções a assédio e burnout, e avisa o RH. Quando um fator entra em risco alto, gestores e RH recebem o alerta e podem abrir um plano de ação ligado ao indicador, com responsável, prazo e valor de partida. Esses dados também apoiam o trabalho da NR-1 conduzido com a equipe de SST.

Módulo de Engajamento

Saiba o que o time sente em tempo real e aja antes que vire saída

Pesquisa contínua com os 10 pilares do engajamento, comparação entre áreas e planos de ação.

Conheça o módulo de Engajamento →
Relatório dos 10 pilares do engajamento na TeamCulture

Perguntas frequentes

Burnout é doença?

Pela CID-11, o burnout (código QD85) é um fenômeno ocupacional que a OMS não classifica como condição médica. No Brasil, o Ministério da Saúde incluiu o esgotamento (burnout), com o código Z73.0 da CID-10, na Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, pela Portaria GM/MS nº 1.999/2023, associado a fatores psicossociais como gestão organizacional e jornada de trabalho. Em qualquer caso, o diagnóstico e o tratamento cabem a um profissional de saúde.

O RH pode identificar quem está com burnout?

O RH e os líderes podem perceber sinais de mudança e oferecer apoio, mas o diagnóstico é de psicólogo ou psiquiatra. Nas pesquisas, o caminho é olhar resultados agregados por time e agir nas condições de trabalho.

O que fazer quando um colaborador diz que está esgotado?

Ouvir sem julgar, agradecer a confiança e perguntar o que ajudaria naquele momento. Depois, rever com a pessoa o que está ao alcance do líder, como prioridades e prazos, e indicar os canais de apoio profissional da empresa e do SUS. Se houver risco imediato à vida, acione o SAMU (192) ou leve a pessoa a um pronto-socorro. Para apoio emocional, o CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188.

Pesquisa de saúde mental precisa ser anônima?

É o mais recomendado. As pessoas só respondem com sinceridade sobre carga de trabalho, liderança e assédio quando confiam que não serão identificadas, e por isso os resultados aparecem apenas agregados, com um número mínimo de respondentes por grupo.

A Lei 14.831 obriga a empresa a ter um programa de saúde mental?

Não. A lei criou um certificado para as empresas que quiserem obtê-lo e cumprirem os requisitos. A obrigação de gerenciar os fatores de risco psicossociais vem da NR-1.

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